carbonreport.com.br

Povos amazônicos antigos estocavam carbono para melhorar a fertilidade do solo

Povos amazônicos antigos estocavam carbono para melhorar a fertilidade do solo

Estudo das sociedades amazônicas anteriores ao descobrimento do Brasil concluiu que elas armazenaram intencionalmente toneladas de carbono para produzir terra preta

Os antigos povos amazônicos manejavam o solo para melhorar a fertilidade e aumentar a produtividade da agricultura. Armazenaram carbono intencionalmente durante séculos, revela o estudo “Criação intencional de carbono em solos de terra preta na Amazônia” (Intentional Creation of Carbon-Rich Dark Earth Soils in the Ancient Amazon). O trabalho de um grupo de 30 cientistas foi concluído em 2022 e publicado ontem pela Science Advances.

Ente os autores estão Morgan Schmidt, da Universidade Federal de Santa Catarina, Sam Goldberg, da Universidade de Miami, Michael Heckenberger, da Universidade da Flórida, e Carlos Fausto, da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

As pesquisas demonstram a criação intencional de terra preta e destacam o valor do conhecimento indígena para o manejo sustentável da floresta tropical. O solo fértil conhecido como terra preta amazônica é central para o debate sobre o tamanho e o impacto ecológico das antigas populações humanas na Amazônia, diz o texto. Alguns locais armazenam tanto carbono quanto a biomassa da floresta tropical acima do solo.

Os cientistas destacam que, embora a floresta amazônica seja rica em biodiversidade, seus solos são pouco adequados para o cultivo. Em alguns lugares, porém, os arqueólogos descobriram manchas de terra preta e fértil onde os antigos humanos se estabeleceram. Até agora, não estava claro qual o papel que os humanos desempenharam no cultivo da chamada terra preta, dizem os autores.

Para abordar essas questões sobre humanos antigos, carbono do solo e fertilidade do solo tropical, os cientistas combinaram análises de solo de assentamentos indígenas modernos e antigos com pesquisas arqueológicas e etnográficas com foco no Território Indígena Kuikuro, na bacia do Alto Xingu, no sudeste da Amazônia.

A pesquisa de campo colaborativa na Terra Indígena do Xingu, de 2002 a 2021, foi apoiada pelas bolsas do Programa de Arqueologia NSF, patrocinadas pela Universidade da Flórida em colaboração com patrocinadores institucionais brasileiros como o Museu Nacional, Museu Goeldi e Universidade de São Paulo. 

Sociedades anteriores ao descobrimento do Brasil 

As evidências arqueológicas revelaram uma longa história de interações ser humano-ambiente. Até agora as interpretações eram variavam de uma Bacia Amazônica escassamente povoada, com impacto humano relativamente pequeno no meio ambiente, até populações densas e sociedades complexas que modificaram substancialmente a paisagem.

No centro deste debate está a terra preta – solo antrópico, ou seja, produzido por atividade humana, caracterizado por uma cor mais escura, maior teor de carbono orgânico e maior fertilidade do que os solos típicos de terras altas da Amazônia. 

A ocorrência de extensões substanciais de terra preta em muitos sítios arqueológicos, combinada com a descoberta de que a Amazônia era um centro de domesticação de culturas, sugere que populações localmente densas podem ter sido apoiadas pela criação e cultivo de solos enriquecidos, superando assim a baixa fertilidade dos solos das florestas tropicais. 

O solo fértil é hoje procurado por agricultores indígenas e não indígenas para o plantio. A presença de carvão, restos de comida e artefatos indica que os humanos contribuíram para a formação da terra preta.

Manchas de terra preta ocorrem em toda a Amazônia, em diversos tipos de solo e em diferentes contextos culturais e ambientais, dizem os autores. As duas principais hipóteses para sua origem atividades humanas: uma delas é a eliminação de resíduos domésticos. A outra é de que resulta de práticas de cultivo.

A terra preta não é um fenômeno estritamente amazônico. Solos antrópicos podem ser encontrados em todo o mundo. No entanto, a da Amazônia é notável porque contrasta fortemente com a fertilidade especialmente baixa dos solos tropicais típicos de terras altas na Amazônia.

Ao contrário das regiões do mundo onde a agricultura era viável mesmo em solos não modificados, a formação de terras pretas na Amazónia pode ter desempenhado um papel fundamental de permitir o desenvolvimento de antigas sociedades agrícolas na região.

Além da importância da terra preta para as sociedades amazônicas e para a produção de alimentos, ela também é um reservatório substancial de carbono. Daí a importância de conter a perda de carbono do solo devido a alterações no uso da terra e do aquecimento global.


Aldeia Kuikuro, na Amazônia. Foto: Josué Toney