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Mundo caminha para aumento de temperatura de até 3°C acima da era industrial neste século

Mundo caminha para aumento de temperatura de até 3°C acima da era industrial neste século

Não há nenhuma pessoa ou economia no planeta intocada pelas mudanças climáticas, afirma Inger Andersen, diretora do PNUMA, para quem é preciso começar a estabelecer recordes no corte de CO2

20 de novembro de 2023

A ONU divulgou nesta segunda-feira (20/11), mais um alerta climático pré-COP28, a conferência do clima prevista para acontecer a partir do próximo dia 30, em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos. À medida que as temperaturas globais e as emissões de gases de efeito estufa batem recordes, o relatório mais recente do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) conclui que os compromissos atuais no âmbito do Acordo de Paris colocam o mundo no caminho de um aumento da temperatura de 2,5°C a 2,9°C acima dos níveis pré-industriais neste século, apontando para a necessidade urgente de uma maior ação climática.

O Relatório sobre a Lacuna de Emissões 2023: Recorde Quebrado – Temperatura atinge novos máximos, mas o mundo falha em reduzir as emissões (novamente), é a 14ª edição de uma série que reúne muitos dos principais cientistas climáticos do mundo para analisar as tendências futuras nas emissões de gases de efeito estufa e fornecer soluções potenciais para o desafio do aquecimento global.

Segundo o documento, houve progressos desde que o Acordo de Paris foi assinado, em 2015. No entanto, para o aumento da temperatura ficar nos 2% previstos pelo Acordo de Paris, é preciso cortar as emissões em 28% até 2030. Para limitar a elevação da temperatura a 1,5°C, será preciso um esforço ainda maior: diminuição de 42% nas emissões nesta década.

“Não há nenhuma pessoa ou economia no planeta intocada pelas mudanças climáticas, por isso precisamos parar de estabelecer recordes indesejados em termos de emissões de gases de efeito estufa, aumento das temperaturas globais e condições meteorológicas extremas.Em vez disso, devemos deixar ambição e ação insuficientes, e começar a estabelecer outros recordes: no corte de emissões, em transições verdes e justas e no financiamento climático”, disse hoje Inger Andersen, diretora executiva do PNUMA.

Recordes quebrados

Até o início de outubro deste ano, foram registrados 86 dias com temperaturas que ultrapassaram 1,5°C acima dos níveis pré-industriais. Setembro foi o mês mais quente já registrado, com temperaturas médias globais 1,8°C acima dos níveis pré-industriais.

O relatório conclui que as emissões globais aumentaram 1,2% entre 2012 e 2022, atingindo um novo recorde de 57,4 gigatoneladas de dióxido de carbono equivalente (GtCO2e). As emissões de carbono no G20 (19 maiores economias do mundo, mais a União Europeia) aumentaram 1,2% em 2022.

Se os esforços de mitigação implícitos nas políticas vigentes continuarem nos níveis atuais, o aquecimento global só será limitado a 2,9°C acima dos níveis pré-industriais neste século. A implementação completa das Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs) apresentadas pelos países colocaria o mundo no caminho de limitar o aumento da temperatura a 2,9°C.

Se todas as NDCs condicionais e os compromissos de zero emissões líquidas de carbono de longo prazo fossem cumpridos, limitar o aumento da temperatura a 2°C seria possível. No entanto, atualmente, os compromissos de zero emissões líquidas de carbono não são considerados críveis: nenhum dos países do G20 está reduzindo as emissões a um ritmo consistente com as suas metas de zero emissões líquidas de carbono. Mesmo no cenário mais otimista, a probabilidade de limitar o aquecimento a 1,5°C é de apenas 14%.

Algum progresso, mas não o suficiente

O progresso de políticas desde a assinatura do Acordo de Paris, em 2015, reduziu a lacuna de implementação, definida como a diferença entre as emissões projetadas no âmbito das políticas atuais e a implementação completa das NDCs. As emissões de GEE em 2030, com base nas políticas em vigor, foram projetadas para aumentar 16% no momento da adoção do Acordo de Paris. Hoje, o aumento projetado é de 3%.
Em 25 de setembro, nove países tinham apresentado NDCs novas ou atualizadas desde a COP27 em 2022, elevando o número total de NDCs atualizadas para 149. Se todas as NDCs incondicionais novas e atualizadas forem completamente implementadas, elas provavelmente reduziriam as emissões de GEE em cerca de 5 GtCO2e anualmente até 2030, em torno de 9% das emissões de 2022, em comparação às NDCs iniciais.

No entanto, a menos que os níveis de emissões em 2030 sejam ainda mais reduzidos, será impossível estabelecer caminhos de menor custo que limitem o aquecimento global a 1,5°C, sem nenhum ou com pouco excedente durante este século. Aumentar significativamente a implementação nesta década é a única maneira de evitar ultrapassar de forma significativa 1,5°C.

Transformações para o desenvolvimento de baixo carbono

O relatório apela a todas as nações para que promovam transformações para o desenvolvimento de baixo carbono em toda a economia, com foco na transição energética. O carvão, o petróleo e o gás extraídos ao longo da vida útil das minas e campos em produção e planejados emitiriam mais de 3,5 vezes o montante de carbono disponível para limitar o aquecimento a 1,5°C, e quase todo o montante disponível para 2°C.

Os países com maior capacidade e responsabilidade pelas emissões – especialmente os países de renda elevada e com altas emissões entre o G20 – terão de tomar medidas mais ambiciosas e rápidas e fornecer apoio financeiro e técnico às nações em desenvolvimento. Como os países de baixa e média renda já são responsáveis por mais de dois terços das emissões globais de GEE, atender às necessidades de desenvolvimento com baixo crescimento de emissões é uma prioridade nessas nações – como, por exemplo, abordar os padrões de demanda de energia e priorizar as cadeias de suprimento de energia limpa.

A transição para um desenvolvimento de baixo carbono coloca desafios econômicos e institucionais aos países de baixa e média renda, mas também proporciona oportunidades significativas. As transições nesses países podem ajudar a proporcionar acesso universal à energia, tirar milhões de pessoas da pobreza e expandir indústrias estratégicas. O crescimento energético associado pode ser alcançado de forma eficiente e equitativa com energia de baixo carbono à medida que as energias renováveis ​​se tornem mais baratas, garantindo empregos verdes e um ar mais limpo.

Para conseguir isso, a assistência financeira internacional tem que ser significativamente ampliada, com novas fontes públicas e privadas de capital reestruturadas por meio de mecanismos de financiamento – incluindo financiamento de dívida, financiamento concessional de longo prazo, garantias e financiamento catalítico – que reduzam os custos de capital.

COP28 e o Balanço Global

O primeiro Balanço Global (GST, na sigla em inglês), a ser concluído na COP28, irá informar a próxima rodada de NDCs que os países deverão apresentar em 2025, com metas para 2035. A ambição global na próxima rodada de NDCs deve levar as emissões de GEE em 2035 a níveis compatíveis com trajetórias de 2°C e 1,5 °C, enquanto compensa o excesso de emissões até os níveis condizentes com estas trajetórias sejam alcançados.

A preparação da próxima rodada de NDCs oferece aos países de baixa e média renda a oportunidade de desenvolver planos nacionais com políticas ambiciosas de desenvolvimento e clima, e metas para as quais as necessidades financeiras e tecnológicas são claramente especificadas. A COP28 deve garantir que seja fornecido apoio internacional para o desenvolvimento de tais planos.

Remoção de dióxido de carbono

O relatório conclui que atrasar as reduções das emissões de GEE irá aumentar a dependência futura da remoção de dióxido de carbono da atmosfera. A remoção de dióxido de carbono já está sendo implementada, principalmente por meio do florestamento, reflorestamento e manejo florestal. As atuais remoções diretas por meio de métodos terrestres são estimadas em 2 GtCO2e anualmente.

No entanto, as vias de menor custo pressupõem aumentos consideráveis ​​nas remoções convencional e nova de dióxido de carbono – como a captura direta de carbono no ar e o armazenamento.

Alcançar níveis mais altos de remoção de dióxido de carbono permanece incerto e associado a riscos: em relação à concorrência por terras, proteção de posse e direitos e outros fatores. O aumento da escala de novos métodos de remoção de dióxido de carbono está associado a diferentes tipos de riscos, incluindo o fato de que os requisitos técnicos, econômicos e políticos para a implantação em larga escala podem não se materializar a tempo.